Sob a ótica psicanalítica, o feminicídio não é um ato isolado nem fruto de um "impulso momentâneo", mas a expressão extrema de uma estrutura psíquica marcada pela incapacidade de lidar com a falta, a frustração e a autonomia do outro. Trata-se de um crime que revela falhas profundas na constituição do sujeito, especialmente na relação com o desejo, o poder e a alteridade.

Na psicanálise, o sujeito que comete o feminicídio frequentemente apresenta uma vivência narcísica fragilizada. A mulher não é reconhecida como um sujeito de desejo próprio, mas tratada inconscientemente como objeto de posse, extensão do ego ou suporte de uma identidade instável. Quando essa mulher rompe, ameaça romper ou simplesmente afirma sua autonomia, o agressor vivencia tal movimento como um ataque intolerável à própria existência psíquica.

O ato violento surge, então, como uma tentativa desesperada de restaurar um controle perdido. Incapaz de simbolizar a perda, de elaborar o luto ou de sustentar a castração ? conceito central na psicanálise ? o agressor recorre à passagem ao ato. O assassinato substitui a palavra, revelando a falência do simbólico e a supremacia do impulso destrutivo sobre o pensamento.

Do ponto de vista psicanalítico, o feminicídio também se ancora em estruturas culturais que reforçam fantasias de dominação masculina. Essas fantasias, quando internalizadas por sujeitos psiquicamente frágeis, alimentam uma crença inconsciente de direito sobre o corpo, a vida e o destino da mulher. Assim, o crime não é apenas individual, mas também expressão de um mal-estar social que legitima, ainda que silenciosamente, a violência.

A psicanálise não justifica o ato, mas o interpreta para denunciá-lo. Compreender os mecanismos inconscientes envolvidos no feminicídio é fundamental para romper ciclos de repetição, promover prevenção e reafirmar que nenhuma relação pode existir sem o reconhecimento do outro como sujeito. Onde a palavra falha e o desejo é negado, a violência ocupa o lugar do diálogo ? e é exatamente aí que a sociedade precisa intervir.

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